O NORMAL PARA MIM

Nasci numa casa com pais que trabalhavam fora. Minha mãe era professora da rede pública no interior do Paraná e meu pai pequeno empresário em São Paulo, capital. Eu e meus dois irmãos mais velhos estudávamos em escola pública em meio período. O restante do dia era dedicado a brincadeiras pelo bairro e esportes nas ruas e quadras. Sou a única neta mulher e a última a nascer, num total de oito netos, na família por parte de mãe. Nenhum neto nasceu com cabelos ruivos como do meu avô, apenas eu. Odiava cabelo comprido, maquiagem e saia. Aos 7 anos já tinha um enxoval de casamento completo, que minhas avós fizeram. E até meus 15 anos eu dizia que jamais iria me casar. Até os 24 eu dizia que não teria filhos. Minha casa vivia cheia de pessoas. Fui ver computador apenas aos 18 anos, quando entrei no meu segundo emprego. A vaga dizia: deseja-se conhecimento em Informática. E no meu currículo dizia: Informática básica. Na verdade, eu nunca tinha ligado um computador. Porém, pela força maior e indicação do meu tio, um dia depois da entrevista estava sentada em frente ao equipamento.

Eu cresci e minha relação com o computador amadureceu. Amadureceu também meu relacionamento amoroso com meu namorado. Minha opinião sobre se casar havia mudado e me “casei”. Casei-me assim com aspas mesmo. Não teve aquele festão, nem vestido, nem dia da noiva. Não teve cartório, nem assinatura, muito menos alianças. Contudo, teve churrasco, muito amor, família e amigos verdadeiros. Dessa união, gerei dois filhos. Duas crianças que quando aprenderam a ficar em pé, apoiados no rack da televisão, foram logo enfiando seus dedinhos cheios de tatu de nariz e baba na tela, pensando que um toque escolheria o desenho que mais chamou a atenção.

Meus filhos estão crescendo numa casa como a que eu cresci: pais trabalhando fora de casa, estudando, brincando e praticando esportes. Entretanto, minha dedicação ao trabalho me levou a poder pagar uma escola em período integral. E meus filhos então brincam e praticam esportes na escola e não na rua, como eu. Recebemos muitas pessoas em casa, de parentes a amigos, com bichos e filhos. Na minha casa tem computador, na casa dos meus pais não tinha. Nós temos duas televisões e só uma funciona, a que eu cresci tinha uma e “pegando bem”. Minha filha diz que não vai ter filhos e adora maquiagem. Eu também aprendi a gostar de maquiagem. Meu filho de 7 anos diz que vai ter filho, mas não vai se casar. Andamos muito à vontade em casa, assim como chegamos ao mundo. Onde cresci, não me lembro de ver muitas pessoas nuas.

Ao ler estes parágrafos, alguns se identificarão. Outros farão uma cara de “nossa”, ”ó”, “que estranho”. Ou seja, o que é normal para mim não é para você e vice-versa. O normal é tão subjetivo que quando vejo pessoas falando sobre o “novo” normal chego a me arrepiar. Então, comecei a refletir sobre o que é normal. E cheguei a conclusão do que é normal para mim.

Estar trabalhando de maneira remota, em casa ou onde quer que seja, não é normal para muita gente, nem para mim, mas deve ser normal para muita gente. Poderia citar outros tantos mil exemplos do que é normal para mim do que não é normal para os outros, mas poderia ser normal para mais alguém, isso seria interminável. Por isso, adicionar as palavras para e mim ao final da frase e de algumas afirmações e crenças que temos se torna mais empático. De maneira parecida, é incluir na minha opinião antes de afirmar algo. Eu não preciso convencer ninguém do que eu acredito, eu preciso sim é dividir o que penso (e eu posso mudar de opinião). Se isso fizer a outra pessoa refletir e mudar de ideia, ou não, é problema dela.

Por inúmeros motivos, faço terapia. Uma terapia holística que envolve meditação, autoconhecimento, espiritualidade. E uma coisa a qual escuto muito nas sessões é: veja e escute sem julgar. Conselho dificílimo de seguir. Afinal, se julgo é porque acho diferente de mim. Se é diferente de mim não é normal. Minha cultura, minha criação, e até personalidade, jogam contra. Contudo, tenho tentado com afinco. Eu sou diferente para ele, mas posso ser normal para você. Ver e aceitar o diferente em nós, nos outros e nas coisas é essencial. Certamente, pelo “normal” que me apresentaram e ainda me apresentam aos olhos e ao coração, tanto me estranha a palavra normal. Eu odeio o normal. Já diria um verso de uma música que escuto com meus filhos: “o normal está nas coisas diferentes”.

E quanto ao computador? Hoje somos bons amigos e nunca mais saí da frente dele. Devido à pandemia, hoje trabalho de casa, quer dizer, da casa da praia!

Por Mariana Amaral Pinto. Mãe de dois, namorando há mais de 20 anos a mesma pessoa, apaixonada por receber pessoas (e às vezes bichos) em casa, uma agregadora de pessoas. Atua profissionalmente como Diretora Administrativa e Financeira no IBGTr e Gerente Administrativa e Financeira no escritório Becker Direito Empresarial.

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