Ética, Pessoas e as Empresas

Por Rita de Cácia de Medeiros Guerim

 

Discorrer sobre ética, desde a sua forma mais abrangente ou detalhada, deve, essencialmente, passar pela análise comportamental do indivíduo ou do grupo ao qual está inserido durante as várias fases da vida, estimando-se que a evolução coletiva positiva esteja presente como premissa do ser humano.

E se a sociedade, sob a avaliação do coletivo, na qual estamos inseridos apresenta degradação significativa de valores na sua essência organizacional? Como ficará o comportamento do indivíduo nesse contexto?

No Brasil, em tempos de operações como a “Lava Jato”[1] e “Carne Fraca”[2],  as reflexões e medidas concretas sobre o conceito de ética e a sua aplicação universal são fundamentais para que possamos avaliar e eventualmente testemunhar ou não a evolução positiva das relações sociais no caminho de um conjunto de valores bons e justos para todos. Nessa linha, as organizações empresariais podem ocupar um papel de protagonistas na medida em que adotarem a ética e o Compliance como mecanismo de controle e formação de cultura positiva, através da adoção de boas práticas de governança corporativa tais como a transparência nas informações contábeis, financeiras e gerenciais nas suas operações como meio empresarial. “É mandatória a adoção da ética como tônica da gestão empresarial. Ignorá-la pode custar muito caro,… O Fórum Econômico Mundial aponta que a corrupção tem um alto preço para as nações. Seu custo equivale a duas vezes o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, uma soma correspondente a cerca de 5% do PIB global (Deloitte, 2014)” (Antonik, Luis Roberto; Compliance, Ética, Responsabilidade Social e Empresarial, pág. 33, Alta Books, 2016)

Mas será que mesmo adotando todas as regras disponíveis de ética, Compliance e governança corporativa uma empresa ainda estará a salvo de condutas antiéticas disparadas fora das regras previamente definidas nesses mecanismos de orientação e controle? Parece que a resposta é não, pois empresas são essencialmente sustentadas por pessoas, com diferentes posições culturais, diferentes níveis de conhecimento e de ética, sofrendo e usufruindo de pressões do ambiente que remontam, desde sempre, significativa influência nas atitudes do ser humano. Não obstante, acredito que todo o ser humano tenha em si o que poderíamos chamar de código de acesso ao que é bom, justo e correto e o código de acesso ao que é injusto, individualista e incorreto. Em determinados momentos, ou situações da nossa existência, primamos ou valorizamos mais o código de acesso do caminho incorreto, geralmente na idade inicial pela imaturidade. No entanto, a experiência da vida nos levará através do estofo de escolhas mal ou bem-sucedidas, a desígnios mais justos e adequados; é o caminho natural, que infelizmente nem todos alcançam, mas que com medidas punitivas, corretivas e com o debate social do que está inadequado poderemos visualizar melhora. Afortunados os que têm acesso e os que buscam os valores simples da vida: autoconhecimento, honestidade, transcender o individualismo e pensar no bem coletivo em qualquer instância das suas organizações empresariais; muita riqueza será encontrada nesses valores, inclusive a riqueza da sustentabilidade própria e da coletividade; daí é possível concluir que investimento em educação, cultura e desenvolvimento de princípios e valores ainda fazem a diferença em uma organização. É preciso acreditar no poder da educação com ética para a mudança.

E o que as organizações (empresas) agregam ao contratarem pessoas que adotam uma postura de valores éticos nos seus mais diversos momentos da vida? A sustentabilidade! Como bem afirmou John Elkington[3], Cannibals with forks:

“A transição para o capitalismo sustentável será uma das mais complexas revoluções que a nossa espécie já vivenciou. Estamos embarcando em uma revolução cultural global, que tem como epicentro a sustentabilidade. Ela tem a ver com valores, mercados, transparência, ciclos de vida de tecnologias e produtos e tensões entre o longo e o curto prazo. E as empresas, mais que governos ou outras organizações, estarão no comando destas revoluções. Um comando que se exercerá pelos princípios da governança corporativa.”

Ética e moral incluídos no conceito de Compliance formam um único vetor, de cunho pessoal ou empresarial, que irá determinar a sustentabilidade, credibilidade, o valor e a própria sobrevivência de uma empresa no longo prazo (GIOVANINI, 2014)

Disseminar a cultura da ética, inclusive com debates na área de educação desde as idades iniciais até o ingresso do indivíduo na vida profissional, permitirá a tomada de decisões mais conscientes e, quiçá, com a maioria de acesso ao código do que é bom, justo e correto de forma sustentável a todos!


[1] Operação Lava Jato é um conjunto de investigações em andamento pela Polícia Federal do Brasil, cumprindo mais de mil mandados de busca e apreensão, de prisão temporária, de prisão preventiva e de condução coercitiva, visando apurar um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou de 10 a 20 bilhões de reais em propina.[1 Wikipedia)

[2] Operação Carne Fraca é uma operação de combate ao crime pela Polícia Federal do Brasil, e teve início no dia 17 de março de 2017. Ela foi o estopim para o escândalo, onde apontou que as maiores empresas do ramo — JBS, dona das marcas Seara, Swift, Friboi e Vigor, e a BRF, dona da Sadia e Perdigão — são acusadas de adulterar a carne que vendiam no mercado interno e externo.[3] No total o escândalo da carne adulterada no Brasil envolve mais de 30 empresas alimentícias do país,[4][5] acusadas de comercializar carne estragada, mudar a data de vencimento, maquiar o aspecto e usar produtos químicos supostamente cancerígenos[nota 2] para buscar revenda de carne estragada, além de apontar agentes do governo acusados de liberar estas carnes.[8] Wikipedia)

[3] Governança Corporativa: Fundamentos, desenvolvimento e tendências/ ANDRADE, Adriana. ROSSETTI, José Paschoal, 3ª edição, SP, Atlas,  – 2007, página 25 – 1

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